quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala.

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem VIVE e CANTA no mau tempo.


(Procelária - Sophia de Mello Breyner Andresen)
ANTIECLESIÁSTE

Chuva nas nuvens,
flores nas arvores,
lágrimas em nós.

Estação de chuva,
estação de flores.
O tempo inteiro para as lágrimas

Por isso estamos tão extenuados:
todos os tempos foram de chorar.

- Cecília Meireles

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014



É preciso morrer, todos os dias, um tantinho
Qual barco a navegar, ajustando direções
A fingir completamente não buscar nenhum sentido
Mas colhendo, em segredo, a obviedade das canções

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Punhetinha safada

Santos se sentem sentidos.
Sempre assuntando, pois sem
assento acentuam sentidos.
Assados assíduos hão sidos
saudados. Saudades, cidade!
Assistam sentados, soldados
sarados assando aos sábados.
Safados, safaram-se ao sol, 
Sassaricaram, sambaram.
Suaram sabores salgados
                          Enquanto
O poeta punheta poemas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Inquebrável

Derrama teu lago em mim,
Meu vaso ruim
Transborda teu infinito poço
Ceifa o que eu tenho de moço
Canta outra vez pra mim,
Meu vaso ruim?
Me mostre tudo de novo
Me mostre todo de novo
Eu quero sim
Meus líquidos nesse vaso ruim
Minha febre, dureza, agonia, alegria
Tudo lateja dentro e ao redor de mim
Teu mijo, teu riso, teu desprezo, teus quadros xilografados na minha cabeça
Teu corpo nu na janela que eu decorei sem tocar
Teu toque que meu corpo me devolve em grossas gotas
Tua voz que me deixa as orelhas roxas
Eu vejo de dentro você, vaso
Eu racho e também não quebro
Eu me alivio sem me rebolar
E me desespero de novo sorrindo
Como é bom pra mim esse vaso ruim.


sábado, 22 de novembro de 2014

Subtle rhymes hai kai

Free like a bird
He has a beard
Drinking his beer
They call him bear
Doing it just bare

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Rimas difíceis

Primeiro como tragédia, depois como farsa
(olha, sorri, pisca e disfarça)
Primeiro como centelha, depois como sarça,
Primeiro como ovelha, depois como garça,
Primeiro como abelha, depois como traça.


O segundo me olhou, tal qual como cão de caça.
O segundo me enganou. Era trapaça.
Resta vazia minha cabaça
(Olha de esguelha. Não mais disfarça).


Primeiro como Amélia, depois como Graça.
Primeiro como Ofélia, depois perde a graça.
Primeiro vem Adélia, depois passa.
Primeiro grelha, depois assa.


E o que lhe der na telha, faça.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Essa é de uma Poetisa maravilhosa chamada Fátima. O sobrenome dela se perdeu nos vapores dos vinhos que tomávamos nas noites frias de Juiz de Fora.
Embora o sequelado aqui não se lembre de seu sobrenome, lembra-se do quanto você era carinhosa, companheira, boêmia e idealista. O tempo passou e eu não sei mais de Fátima, mas carrego seus estilhaços, principalmente na forma como escrevo poesia.


Navegar

Num mar
Haviam muitas interrogações
Com o tempo, porém, 
A vida rogou ações
Havia...
Agia...
Viagem...
Naufragar,
Nadar,
Quase morrer
E renascer...
Seres Serenos Seremos
Não somos. Engano...
À noite, ciganos...
Retornar
Içar âncoras
Ânsia
E a eterna anciã
Solidão!!!
Pausa pro coração.
Música reticente...
Olho bate e sente
Sentimos... Sentamos...
Cigarro,
Sono tadio,
Bar cheio...
Esperança veio
êxtase
Emoção
Paixão!!!
Casar? Casamos...
Engano: O amor saiu de férias.
Tempo indefinido.
Mas quer deixar recado?
Recaio.
Declaro.
Pausa pra alma.
Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho

- E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato
atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino
Amortecer
 

Tecer amor
 

Entreter
 

Entretecer
 

Entrelaçar
 

Entregar
 

A si
 

A sós
 

Assaz amar

domingo, 16 de novembro de 2014

Privacidade


Pra você que sempre gostou de cantos

Agora é neles que eu sempre te esqueço

Pra você que sempre buscou recantos

Agora é neles que eu nunca te levo

Pra você que sempre treinou canto

Bem alto e fira do tom

Pra você que nunca trouxe encanto

Só desencanto, canto, cantos e recantos

(E eu quisera crer que aquilo fosse bom)

E só em pensar que eu te quis tanto

E só em saber que já não me cubro com esse manto

Treino um novo cântico e me espanto

É que pensei que tu pudesses me fazer santo

Mas eu bem soube anjo-cair te esquecendo no aconchego e no acalanto

E, talvez tolice, querendo me entender e à vida com meu pranto

E querido - não bem-quisto - entendido desentendido com o viver

Mas nem tanto...

Só não quero mais conviver com você

Mas no entanto

quero simplesmente, e me basta, conviver.

sábado, 15 de novembro de 2014

Exu

Ezu

Ezuberância

Exuberant

Exuberância

Exibe Exuberância

Ecziberância

É a vulga fulerági

Ela Eczibera. Exibida mesmo, sabe? 

Exultat Jubilat

Ela eczubera, vocifera, 

Éris que é.

(Para Leonora Queiroz)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014



Sentido consentido



Nem todo sentido é necessariamente consentido.

Assim, nem tudo que digo a mim mesmo, dou.

Nem tudo que penso, sou.

Nem tudo o que sinto se explica.

Eu sou aquilo que faço. Não sou aquilo que digo ou que penso ou que ouvem ou que sinto que faço.

Talvez eu seja também o que falo, mas o que mais não seria o que falo além de também aquilo que faço.

E justamente por ser aquilo que faço, não é porque não diga sempre o que penso, ou porque não possam ouvir o que sinto, que não seja eu capaz de dar sempre esse passo.

É que eu não digo o que penso, eu tento dizer o que faço.

E é exatamente assim que eu acabo me fazendo transparente, espelho sem aço...

Tudo pela glória de um dia poder dizer que tudo o que digo, faço.


06/10/12 – 14:00

quinta-feira, 13 de novembro de 2014



Devora-me ou eu te decifro!



Sabe, meu primeiro contato com Manoel de Barros foi por alguns versos de XXX que me foram apresentados por Alexandre. Mas naquele momento, mesmo tendo achado lindo, aquilo não me tocou como algo de Manoel de Barros.



Anteontem, conheci outro trecho que me emocionou e que identifiquei como algo de Manoel de Barros, não como algo que um alguém qualquer tenha dito e eu tenha gostado.



Me refiro a isso de saber das origens, de onde vêm as coisas, de quem vêm. Me refiro também a isso de ter sempre as Humanas me acenando amorosamente e eu, teimosamente, seguindo outras direções por aquelas imaturidades da alma que custam a sarar e que o tempo não perdoa, porque tudo morre, gostemos ou não.



Eu falo sério quando digo que quero mais poesia. Não como quem faz, mas como quem conhece, como quem sabe onde se cruzam as abcissas e ordenadas. Isto posto, decreto, tal qual Leminski: se poesia não for amor, mais nada será. Devora-me ou eu te decifro.



E falo mais sério ainda que vou amar ganhar exemplares de Manoel de Barros, de Maria, de Pessoa, de Poesia. Já é natal na Leader Magazine! <3


Preciso saber

Preciso saber o que ando fazendo
Preciso saber onde ando
Quais ruas, quais luas
No imo das nuas
Que rumo tomar

Preciso saber o que ando cantando
Preciso dizer a verdade
Nos bares, nos lares
Nos mares enfim
Preciso saber o que amo

Preciso saber
O que ando sabendo
Preciso aprender a ver
As minhas, as linhas
Das vinhas que como

Preciso saber é o que ando sendo
Preciso aprender as estar
Nas guerras, nas terras
Nas selvas de pedra
Erguer, enterrar

Preciso saber com quem ando vivendo
Preciso gostar de amar
Leoas à toa, a toda pessoa
Ser camaleoas com H

Preciso saber
O que ando sabendo
Preciso aprender a ver
As minhas, as linhas
Das vinhas que como