terça-feira, 11 de maio de 2021

O que precisa ser dito para uma avenca partindo?

Hoje mais cedo, eu me percebi fora de mim por um instante... Olhei pro sujeito lavando a marmita do almoço e pensei no quanto custa ainda estar vivo... Me sentei, olhos fechados, encarei a peste, e me escapou em voz alta: será que eu quero mesmo estar vivo? Não falo de fazer nada de caso pensado, não... Só que a cada vez que eu menosprezo a peste lá fora, a peste que eu vou me tornando me batiza por dentro. 

Deve ser por isso que o medo se tornou meu sobrenome. Quando respiro fundo, toda vez que não dá pra evitar o risco de respirar junto... E bate o pânico de ter disparado uma contagem regressiva sem querer. Medo de respirar, medo de não conseguir respirar mais. Medo de dividir o ar, medo de não conseguir fazer isso sem medo nunca mais. 

O que vai assassinando o sujeito é ter que reprisar essa merda todo santo dia: passar pela encruzilhada das ruas “risco inevitável diante da peste lá fora” e “cautela egocêntrica diante da peste aqui dentro”. Ô, peste, dou a preferência pro pedestre que precisa atravessar a rua da minha vida ou piso na embreagem pra evitar que o motor sanguinolento do meu carro morra? Esse calculismo compulsório acaba matando alguém de qualquer forma. 

Medo de me entregar a uma horinha de descuido. De trocar, por um momento, o imperativo lúcido pelo imperioso lúdico. De celebrar a vida no meio dessa dança macabra, como tanta gente anda fazendo. 

De aceitar que quando vida e morte se bicam é o inevitável que sempre vence. 

Essa meia-verdade desaba pervertida lá de cima, envenenando lentamente o senso comum aqui embaixo. Nos tornando cúmplices por omissão ao assumir que a perda absoluta é condição irremediável. A peste espalhando a peste... A peste que assola fora assomando a peste que mora dentro. Numa relação de abuso que transfere a intenção do culpado pra vítima, instituindo uma fatalidade que despreza o que dela é reversível. 

Não, não digo essas coisas pra provar que eu sou sublime... É puro receio vaidoso mesmo. De deixar de existir na memória dos vivos de um jeito que eu não considero nem um pouco razoável se acontecesse com alguém muito importante pra mim. Porque, no fim das contas, a morte vai matando mesmo é quem fica, às vezes sem que a gente sequer se dê conta disso...

O que precisa ser dito pra uma avenca partindo? 

Ninguém se furta ao inevitável, mas entre o pesadelo possível e o sonho improvável, existe um espaço vazio, onde alguma coisa está morrendo entre nós todos a cada vez que entre nós todos mais um parta sem que haja despedida. O que ainda tem em comum entre nós todos? 

Nesse mar do inevitável, o que ainda é reversível? 

Empurrar mais uma vez essa pedra gigantesca morro acima, é reversível? E a misericórdia lá de cima, sempre no vermelho, é reversível? O assassino desmascarado em potencial, de batina, de gravata ou avental, é reversível? Quando a crueldade é liga essencial pra cunhar uma moeda universal, é reversível? 

Quando a corda no pescoço é o preço do futuro, é reversível? Quando a sobrevida é o preço da necessidade, é reversível? Quando liberdade é o preço pela morte implacável, é reversível? Quando a sua morte é o preço da minha vida, é reversível? 

Quando é só do outro o preço do convívio, é reversível? Quando silenciamento é o preço pela contestação, é reversível? Quando a vaidade é o preço da fogueira do ressentimento, é reversível? Quando se definir pelo trauma é o preço da autoestima, é reversível? Quando a alienação é o preço da saúde mental, é reversível? Quando a morte de um fascista é o preço pela humanidade, é reversível? Quando ver no espelho outro fascista é o preço da justiça, é reversível? 

Quando a indiferença é o preço da carnificina, é reversível? Quando o silêncio é o preço do extermínio, é reversível? Quando a esperança é o preço pela hesitação, é reversível? Quando a dignidade é o preço do consentimento, é reversível? Quando o luto deformado é o preço da luta conformada, é reversível?

Olhando pra peste, pra morte, tão certa, vocês não acham que tem certezas demais sobrando nesse mundo, não?


(parcialmente inspirado em uma fala de Júlia Vita e dedicado à Wanderley Montanholi)