terça-feira, 20 de outubro de 2015


Da janela traseira do quarto de sonhar

As construções infectando um sistema que ecoa predominantemente verde
Dentro delas os que pensam serem os únicos pensantes: eles.
Contaminados por seres, por teres, por taras: sereias serenas gigantes
Pelos arquétipos que criamos
Pelos arquitetos que vemos
Infantes infames que somos
Sabemos
Negamos
Queremos.
Queiramos bem menos, se somos tão plenos
Sejamos ao menos nereidas brilhantes
Caibamos, pequenos, lá dentro do instante

Bermuda verde amarela polindo o solo do seu pequeno universo
Perenes não somos
Janelas trocamos
Os outros não vemos
Nem imaginamos
Piegas vivendo
O nosso momentum
O estorvo que vamos cagando e comendo

Tragando verde e vendo as bermudas azuis e a camisa amarela
No cabide, na tela, olhando pra dentro
Do apartamento
Minuto sangrento
Que eu crio pra mim
Profeta pequeno
Cheio de veneno
Procurando Nemo,
Eu finjo saber qual o meu fim

Fecho os olhos e ainda vejo um país branco
Do tronco que sangrou pra realeza, o manto
Me crava um espanto
Me goza um espasmo
Me enche de encanto
Me drena de asco
Me joga de novo no meu acalanto
Me tira do sonho
Vence por cansaço
Deliro quadrado nesse déjà vu
Será que vai ser sempre assim?

1710/15 - 17:37

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Bebo vinho a afogar certas dores
A taça traça os horrores
comendo as folhas
e seus bolores

Nada fica
Tudo é resto
Por dentro tudo é protesto:
Legião uníssona
Conta contos insones
E sonhos infames

E eu, eu mesmo, que sempre soube tudo à distância
Sou ao mesmo tempo multidão
E, desaprendo a fazê-lo, incólume criança

(Toda guerra só faz buscar seu quinhão de paz na terra)

27/06/13 - 00:20

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vida dividívida 

Uma vida a nada dedicada
Nada nua na nóia do non sense 
Uma vida nada delicada 
Nata úmida bóia sobre o creme

Deja vu danada e editada 
Barca lúdica: lógica inclemente 
Dessa vida nada desviada 
Naja lúbrica jiboia impenitente 

Nódoa nacarada: lívida ilumina
Uma vida olímpica cíclica e insípida 
Névoa mascarada: dúvida que mina 

Neve embolorada: erínia tão ferina
Uma diva tétrica crítica e intrépida
Nórdica azarada: Brigid que nina

segunda-feira, 21 de setembro de 2015




Reversiculogística

Mala azul
Óculos escuros
Ósculos escusos:
No more
Ervas finas
Sedas minhas
Make it sunny:
Off shore
Barbichas de bode
Ou florestas negras
Me gustan todas

Viagens azuis
Riso ou pranto
Los dos materiales
Que forman mi canto
Polvo espeso
Meus espelhos
Puro teatro
Seus pentelhos
Num átimo
Soy loco por ti
Duerme neguinho?
Não! Upa, negrito!




Antropofalogístico


Eu ainda vejo arquétipos desfilando
Nos esquadros deformados dos baratos
Eu ainda vejo beleza nas perspectivas...
E talvez isso me inspire a fazer fados
Descuidados como são os poderes do povo
Se o estímulo influencia vestir ou P ou GG
Tudo continua doendo estratosfericamente
Porque as crianças ainda brincam com a violência, malandras
Pequenas santas espelhos do nosso egoísmo

Prato feito
Parcos feitos
Alma animal
Não perco, leito
Doce e sal

Falso pleito
Fala-se mal
Será a estrada que surge pra se trilhar?
Nau?
Não!
É preciso
Viver essa luta
Do rochedo contra o mar:
Ou dissociar
Num intraturbilhão sereno
Cheio de novos clichês
Ou socializar
Num capitalismo moreno
Pleno de sins e porquês

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Livros

Devotemo-nos aos cigarros
Devoremos as brasas e pontas
Acendam-se
Ascendam-nos
Traguemos sedentários as guimbas

E quando tudo acabado, anunciemos:

- Tem mais um.  

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Preguiça



Premissa da manhã mortiça,



Movediça,



Não manha de missas.



Vela não iça.


Adia delícias.

quinta-feira, 25 de junho de 2015



Alta ajuda em pormenores


Sempre digo: o oposto do medo não é coragem, mas desejo.

Veja: temer e querer são sentimentos; coragem e covardia, atitudes que temos.

Se o desejo vem, a lei de Arquimedes expulsa os medos que vemos.

Por outra via, é possível ato corajoso temendo e ato covarde querendo.

Embora coniventes, quiçá, não convivem: as outras duas sensações são covens, não conventos.

Penso também que nossos maiores medos, não os vemos.

Até novena fazemos: cremos... prometemos... aquiescemos, amenos.

Ingênuos que somos, não vemos, porém, podendo, nos vemos.

Nos vendo, crescemos. Aquietamo-nos ao menos.

Serenos por nos vermos noutro espelho, vamos vivendo,

Mas fechando os olhos ao medo que temos, trememos

E nem vemos o quanto o temor nos torna pequenos,

O quanto manipula, inquieto, nossos próprios sentimentos.

Escolhemos se encolhemos: contrair não é pecado, nem veneno.

Errado, talvez, é não fazer também o seu contrário pra ser pleno.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Poema bipolar

o sonho de um sol
é o sonho de um só
é sonho insondado
mulato calado
besouro zangado
zangão abismado
o que aconteceu?
a cega raposa
arguia sem lousa
quanto tu já deu?

o espírito empirico prevaleceu

a nota foi feita
o resto se azeita, ou
nem se ajeita mais
a fera ferida
a magoa contida
será barrabás?
será esquecida?
será suprimida?
será transcendida?
transincendiada
transversalizada
transada demais
meio envelhecida
meio suicida
meio fratricida
os meus genitais
um meu genocida
um meu regicida
(não, repetitivo demais)

quem predomina não domina
tem a ilusão de dominar
quem denomina o que predomina
é que domina e domina

viver é um jogo de denominar

viver é jogar?

não quero lembrar que eu minto também

domingo, 3 de maio de 2015

Global trends e a tragédia como farsa

tá ficando kafkiano:
traficando cafas
cafofando Áfricas
afrontando profs
aprontando trotes
desfalcando fatos
afiando motes
desfiando nots
retratando Trotski
embrutecendo pobres
produzindo esnobes
gerundiando paródias
e três tigres tigrados
agradando os 'nobres'
aumentando cofres.
lúgubres tempos
lúgubres templos
lúgubres intentos
trabalhadores ludibriados
descaminhos contados
contos desencaminhados.
aliterações pungentes:
cinzas cadentes
e fiascos condescendentes
e você
e tudo a haver

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Belo Belo - Manuel Bandeira

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Tédio Tardio Seqüente ou Hora-extra


Sequei, sacou?
Soquei sacos de estômago.
Saquei socos de um âmago
amargo e ósculos sem asco
de um amigo sem saco. Ácido
de suco gástrico. Árbitro biltre,
o batráquio! Xis! Cheese!
: não consigo, saca? Saco!
Sequei. Saquei. Soquei.
Ok?
Ok.
Só key. Só pó, seu Sapo.
Meu trapo de mim, meu gastro.
Meu neuro, minha neura, minha neosa.
Como uma deusa: meu gastro, meu óculos.
Meus ósculos, seus beijos:
A cura, a curra, o cururu, o cu,
O olho, o sorriso esquivo, o esquilo, o escravo, o escracho, a pedra no sapato.
O tédio.
A falta de tato.
O teto.
A falta de rádio:
de som, de cicuta.
Venenosa labuta.
A rocha, bruta, no Louboutin.
No seu botão,
No seu boutin,
Seu butantã remunerado.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015


De tanta noite que dormi contigo
no sono acordado dos amores
de tudo que desembocamos em amanhecimento
a aurora acabou por virar processo.
Mesmo agora
quando nossos poentes se acumulam
quando nossos destinos se torturam
no acaso ocaso das escolhas
as ternas folhas roçam
a dura parede.
nossa sede se esconde
atrás do tronco da árvore
e geme muda de modo a
só nós ouvirmos.
Vai assim seguindo o desfile das tentativas de nãos
o pio de todas as asneiras
todas as besteiras se acumulam em vão ao pé da montanha
para um dia partirem em revoada.
Ainda que nos anoiteça
tem manhã nessa invernada
Violões, canções, invenções de alvorada...
Ninguém repara,
nossa noite está acostumada.


Amanhecimento


Elisa Lucinda